Maria Cristina de Miranda Henriques – Como vejo e vivo o voluntariado

31 ago 2020
0

Maria Cristina de Miranda Henriques – Como vejo e vivo o voluntariado

     Nem desconfio quando comecei. Desde cedo, vi em casa, na casa de meus avós (paternos e maternos), de tias-avós e tias a acolhida aos que vêm de fora. Com a casa sempre cheia, me acostumei a dividir roupas, camas, o colchão, dormir em redes, acrescentar mais um prato à mesa e acomodar a todos. Regularmente, via mamãe separar roupas nossas em bom estado, redes e sapatos que não nos cabiam mais para mandar para o sitio do tio Renato e tia Maria, em Canhotinho/PE. Mesmo morando em João Pessoa, ela juntava e deixava na casa de vovô Orlando, aqui em Recife, onde eles sempre passavam adiante. Era o ponto de encontro da família entre João Pessoa e Recife. Assim, isso se tornou naturalmente, um hábito para todos os cinco filhos e nove netos de meus pais.

     Eu saí de Recife em 1986 e voltei em 1991. Com a rotina corrida, trabalhando como bancária, divorciada e criando 3 filhos, mas sempre fazendo “a limpa” nos guarda-roupas. Aqui em casa tinha um regulamento: avisava aos meninos que sempre arrumassem o guarda-roupa e tirassem o que não estavam usando. Esperava até uma semana para que eles mesmos separassem. Em caso negativo, num sábado, eu colocava todo o conteúdo dos guarda-roupas no chão do quarto e eu mesma fazia. Aí eles ajudavam, com receio que eu doasse aquela roupa de estimação! Santo sistema democrático…

Michel Peneveyre

     Em 1995, conheci Michel Peneveyre, um suíço que mora em Porto de Galinhas, em uma casa adaptada devido à sua tetraplegia. Apesar da provação, ele realiza um extraordinário trabalho naquele município e nas regiões vizinhas. Admirada, o ajudei no I Rodas da Liberdade em 1996 – Porto de Galinhas, articulando patrocínio junto à CAIXA e ao Exército Brasileiro –CMNE. Hoje, “Rodas da Liberdade” é uma ONG com 15 anos de história e Michel se tornou meu mentor em acessibilidade. O utilizo como parâmetro para criar meu filho especial, pois o considero um exemplo de superação, afinal, ele atravessou o oceano para ajudar pessoas especiais, mesmo sendo ele próprio um cadeirante.

     Em 1997, conheci o monge Jortil Menezes, criador da “Missão da Providência” na Arquidiocese de Olinda e Recife – OAR. Íamos à CEASA todos os sábados, pela manhã, esperar as doações dos feirantes. Geralmente, eram coisas já em estado de descarte, mas também vinha coisa boa! Nós catávamos batata boa em meio a batatas podres, limpávamos molhos para ficar só os coentros, cebolas e cebolinhas, entre outras coisas.

     Enquanto esperávamos o sinal dos feirantes, rezávamos e cantávamos. Jortil conseguia caminhões emprestados de paroquianos nos dias de menor movimento das empresas, saíamos às 15 horas do CEASA com tudo já arrumado e separado em cestas (legumes, frutas, ovos, temperos) e partíamos para a distribuição.

     Nas segundas-feiras, Jortil ia a açougues do interior e a restaurantes em Recife e na região metropolitana pegar ossos e cortes de bode ou boi. Aí começávamos nova distribuição pelas comunidades já contempladas com as verduras e temperos. Os alimentos arrecadados eram utilizados para as sopas dessas comunidades.

Jortil criou um sistema para agregar a comunidade: arrumavam um local e destinavam, para lá, geladeiras, freezers, fogão e caldeirões e reuniam-se alguns moradores para ajudar no preparo e distribuição da sopa diária. Se faltasse gás, Jortil pagava.

     Ali, no local, funcionava, também, uma creche, para que as domésticas deixassem seus filhos e pudessem trabalhar. Lá, as crianças teriam a garantia de uma refeição bem nutritiva: a sopa. Em depoimento para um jornal da época, algumas pessoas em situação de desemprego diziam que aquela sopa era salvadora e, muitas vezes, a única alimentação que tinham.

     Até que, um dia, uma entidade chegou como um “trator” no CEASA e tomou as doações, detonando todo o trabalho realizado. Jortil se mudou para Japaratinga e faleceu em meados de junho de 2005.

     Esporadicamente, comecei a participar das “Brigadas da Alegria”, depois que voltei a morar em Recife, na década de 90. Na época, a ONG ainda era o “Comitê de Cidadania”. Lá, conheci Rosana Miranda Almeida, depois, a Selda Cabral e, conforme fui me tornando mais assídua, vi o Comitê virar uma ONG.

     Alguns fatores me afastaram da “Brigada” realizada em hospitais e asilo: as cirurgias frequentes do meu filho Ricardo e a morte do meu filho Daniel, em 1997. Mas decidi que ainda poderia ajudar na parte administrativa com a experiência em agências que eu possuía.

     Em 2001, aposentada por invalidez, me ofereci para ser voluntária com expediente regular na ONG, levando comigo outra aposentada, a Hilda Fujiwara. Foram anos de profundo e diversificado aprendizado.

     Me afastei em março de 2004 e, em abril do mesmo ano, fundamos uma Associação de Moradores aqui, em Boa Viagem – APBS. Em 2007, conhecemos o Cmte. José Lopes, que comandava a PMPE na Zona Sul (19º.BPM) e, posteriormente, foi Cmte.Geral da PMPE.  Foi outra fase relevante para o voluntariado: agregamos inúmeras comunidades à PMPE para otimizar o trabalho das lideranças comunitárias e a segurança da população. O Cel.José Lopes se aposentou em 2010 e, assim, nosso trabalho também parou.

     Ao longo desses 13 anos, os caminhos da APBS sempre se entrelaçaram com os da ONG. A rede de relacionamentos é muito forte, contando com parcerias notáveis, como a LIONS, a Rotary, além de diversas igrejas e escolas.

     Conhecemos pessoas de várias partes do Brasil, colegas da CAIXA ou da Moradia Nacional e da rede COEP. Fizemos cursos com patrocínios e amigos mentores que saíram dessa rede ligados a outras ONGs, em especial o Bartolomeu Franco, da OAF, o Valdir Cavalcante, do SEBRAE, e, claro, Selda Cabral, que sempre nos enviava para seminários e palestras.

     Realizamos, assim, o curso com o Recife Voluntário para ser voluntária na ONG Moradia e Cidadania. Lá, aprendi sobre a segurança de se preencher o “Termo de Voluntariado” para ambas as partes. Costumo declarar que o voluntariado é algo sério, uma relação trabalhista não remunerada, mas que nos recompensa regiamente. Sempre recebemos muito mais do que doamos.

     A sensação de ser voluntário “raiz” é que parece ser Natal o ano todo: é gratificante cada vez que vemos uma família, uma comunidade, uma escola, um asilo, uma creche ou mesmo uma única pessoa ter suas necessidades mais básicas atendidas e ficar feliz, parar de sofrer, nem que seja por um curto período de tempo.

     Também trabalhei em encontros de jovens e de casais em São Luís, no Maranhão. Nasci numa família católica, mas sou ecumênica pela convicção na questão do voluntariado. Aprendi a congregar pelas semelhanças e superar as diferenças pela causa maior. Atualmente, meu filho Ricardo e eu somos voluntários em nossa Paróquia e a nossa casa tem sempre um canto para viajantes.

     Jesus exorta sempre que “a messe não se perca por falta de operários”. A necessidade é tamanha que sempre haverá serviço. Precisamos dar mais SIM’s, como Maria ao Anjo Gabriel, e nos colocar à disposição!

     Procure sua comunidade, sua igreja, a ONG Moradia e Cidadania: sempre cabe mais gente, mais amor, mais ajuda.

* Maria Cristina de Miranda Henriques é sócia-fundadora e voluntária na Moradia e Cidadania em Pernambuco

Recife/PE, 18 de agosto de 2020

Categorizados em: